2 de abr de 2014

Para uma difusão da música clássica.


Para todos os que nos ocupamos da música hoje chamada clássica há um problema que nos afeta, e é a difusão e o relacionamento com o público.



Quanto arte, a música requer um público, não se desenvolve só num contexto acadêmico, necessita chegar ao ouvinte e devemos propiciar isso.

Dentro da música clássica, seja no estilo que for, ou com a estrategia composicional que for adoptada, podemos pensar em uma forma de fazer mais fácil, dinâmico e abundante o trabalho e a criação musical.

Vejamos um dos problemas mais importantes, nem que seja, logicamente, o único. Hoje em dia, a música tonal não tem difusão porque a interpretação de música clássica é por conta das instituições acadêmicas, como as universidades e os centros culturais, e a estes, como é lógico, lhes interessa promover a música mais postergada da sociedade. Assume-se que a música tonal é feita pelos músicos pop, acha-se que já se tem bastante de tonalidade e que é bom, por esse motivo, reservar os espaços de luta ou de resistência para as universidades e as academias.

Isto pode ser entendível de um ponto de vista. Não obstante, não deixa de ser verdade que muita música tonal e muitos talentos simplesmente se perdem. Inclusive alguns não fazem mais música, deixam de estudar e na realidade não podem compor. E isto mexe também com os intérpretes e as orquestras.

A conseqüência mais imediata é que a música, se não é num contexto acadêmico, não dá para viver, e portanto a figura do concerto com venda de ingressos está em decadência ou não opera na realidade. É impensado, porque é assumido que a música clássica não é lucrativa e ninguém considera que seja possível.

Aliás, lentamente, a execução de música ao vivo diminuiu em importância; hoje, ser moderno equivale a difundir a música através de outros suportes (áudio, vídeo, multi-medial, redes sociais, etc.)

Tudo isto genera uma sociedade mais sedentária, no sentido social e auditivo, menos conectada se não é através da tela de um computador. Além do mais, até o futuro parece nos reservar a imposição da execução informática das obras, por causa do progresso dos sequênciadores e os simuladores musicais.

Para reverter isto é preciso valorizar novamente o concerto ao vivo, isto é, como evento e atividade social. Porém, para conseguí-lo, é preciso que o concerto seja sustentável, ou seja, atrativo para a audiência, mas também para os músicos.

Aqui é onde começa o grande problema, já que o mundo da arte não é focalizado para ser uma empresa e acredita-se que nem deveria sê-lo. Mas a música, na prática, resulta ser uma empresa mesmo que seja de uma forma diferente. Opera, certamente, de uma forma diferente e deveria obedecer a outros princípios.

Por exemplo, a forma como repartir o lucro de um concerto entre o compositor, o regente e a orquestra. E dentro da orquestra, quanto lhe corresponderia a cada parte? Isto representa uma fonte insuperável de problemas, já que determinar um lucro diferente a cada parte, mais do que facilitar o processo o complica, devido a que cria desconfianças, inexatidões, complica as relações humanas e também não é justo.

Se nos basarmos em que a música é uma criação coletiva, considerando ao músico como um ré-criador, ré-compositor da obra, onde a sua intervenção pode incluso melhorar ou enriquecer a ideia original, podemos extrair deste princípio uma guia útil para orientar o trabalho musical e as relações humanas. Entendendo à música como uma criação coletiva podemos organizar a relação entre a responsabilidade e a recompensa num sentido igualitário, onde o total resulta maior do que a soma das partes.

Tomando conta disto, a proposta é bem simples, e consiste na criação e difusão das obras através de concertos pagos, sem excluir necessariamente a forma de concerto com ingresso gratuito, mas entendendo que para que exista um verdadeiro trabalho musical, com dignidade e possibilidades para intérpretes e compositores, deve existir uma inserção verdadeiramente profissional que envolva aos músicos. Seguindo o princípio da música como um trabalho coletivo, poder-se-ia assim estabelecer uma retribuição econômica igual para o compositor e para o intérprete, seja ou não um solista, ou um grupo de câmara ou uma orquestra. O compositor e o regente, entendido este último como um intérprete, receberão a mesma recompensa econômica que qualquer outro músico que for parte do espetáculo.

A intenção é fazer mais fácil, fluida e dinâmica a relação entre compositores, intérpretes e público. Baseia-se num tratamento mais equitativo e, também, mais simples em termos de cálculos, reuniões e percentagens. Havendo uma forma mais simples de relacionamento elimina-se ou mitiga-se a necessidade de administradores. A música pode ficar fundamentalmente em mãos dos músicos, o que permitiria às orquestras menores ou de poucos recursos (por exemplo, orquestras juvenis) operar e organizar concertos.

O que aqui foi exposto se baseia em alguns princípios que se devem manter presentes e se podem sintetizar em três pontos:


  • A igualdade e equiparidade na distribuição de cargos e recompensas econômicas. 
  • A cooperação enfatizada por cima da concorrência. 
  • O valor de música em si mesma, a que se deve sustentar na experiência auditiva e sonora. 

Desta forma poder-se-ia iniciar um trabalho vivificante para revitalizar e fazer mais dinâmica a criação e a interpretaçao musical, no âmbito da música clássica, dentro de qualquer estilo o sistema de composição, mas tomando conta a inter-relação e a retro-alimentação entre intérpretes, compositores e público.


Paolo Tabilo Sagua